Generic selectors
Exact matches only
Search in title
Search in content
Post Type Selectors

A obsessão com o corpo perfeito e o vazio que nenhuma caneta resolve

Essa semana o Brasil inteiro voltou a falar sobre canetas emagrecedoras. Políticos prometendo distribuir de graça, gente comprando contrabandeado pela internet, filas em clínicas. A corrida pelo corpo ideal virou pauta nacional de novo. Mas eu quero falar sobre o

Essa semana o Brasil inteiro voltou a falar sobre canetas emagrecedoras. Políticos prometendo distribuir de graça, gente comprando contrabandeado pela internet, filas em clínicas. A corrida pelo corpo ideal virou pauta nacional de novo.

Mas eu quero falar sobre o que ninguém pergunta: por que a gente precisa tanto mudar o corpo pra se sentir digna de alguma coisa?

Quando emagrecer vira obsessão, o problema não é o peso

Não estou aqui pra julgar quem usa medicamento. Isso é decisão médica e pessoal. O que me preocupa como psicanalista é outra coisa: a quantidade de mulheres que eu atendo que acreditam, de verdade, que seriam felizes se perdessem 10 quilos.

Já ouvi isso centenas de vezes. “Quando eu emagrecer, vou voltar a sair.” “Quando eu ficar magra, meu marido vai me olhar diferente.” “Quando eu perder essa barriga, vou me sentir bonita.”

A gente coloca no corpo a responsabilidade de resolver feridas que não são físicas. Rejeição, abandono, comparação, a sensação de nunca ser suficiente. Essas dores moram em camadas que nenhuma caneta alcança.

A Síndrome da Boazinha e o corpo como moeda de troca

Harriet Braiker, no livro A Síndrome da Boazinha, descreve mulheres que passam a vida inteira tentando agradar. Agradando o marido, a sogra, a igreja, as amigas. E quando o corpo não agrada mais, é como se o último recurso tivesse falhado.

Porque pra muitas de nós, o corpo foi a primeira moeda de troca. Ser bonita era a forma de ser aceita. Ser magra era a forma de ser amada. E quando esse padrão começa a fugir do controle, a ansiedade aparece. A compulsão aparece. O ciclo de dieta e culpa aparece.

E aí alguém oferece uma caneta que promete resolver tudo em semanas. É claro que parece irresistível.

O que a fé tem a ver com isso?

Dentro da igreja, a gente ouve que “nosso corpo é templo do Espírito Santo”. E isso é verdade. Mas em algum momento essa frase virou mais uma cobrança e menos um convite ao cuidado.

Cuidar do corpo é bom. Querer se sentir bem é legítimo. Mas quando a motivação é culpa, vergonha ou medo de rejeição, o autocuidado vira autopunição. E Deus nunca pediu que a gente se odiasse até ficar “apresentável”.

O Salmo 139 diz que fomos feitas de forma terrível e maravilhosa. Não diz “serás maravilhosa quando atingir o IMC ideal”. Existe uma diferença enorme entre se cuidar por amor e se punir por inadequação.

A ferida por trás do espelho

Vienna Pharaon, em Curando Suas Feridas de Origem, mostra que a forma como nos vemos hoje tem raiz na infância. A menina que ouviu “você tá gordinha” da tia no Natal de 1998 carrega isso até hoje, mesmo sem perceber. A adolescente que só recebia elogio quando estava magra aprendeu que seu valor tem número na balança.

Essas feridas não cicatrizam com semaglutida. Elas precisam de espaço seguro, de escuta, de alguém que ajude a separar o que é desejo real de saúde do que é repetição de uma dor antiga.

É exatamente isso que a terapia faz. Não é falar do peso. É entender por que o peso carrega tanta coisa.

Você não precisa ser magra pra merecer ser amada

Eu sei que parece simples demais. Mas muitas mulheres cristãs nunca ouviram isso de verdade. Ou ouviram, mas não conseguiram acreditar.

A gente vive numa cultura que mistura merecimento com aparência. E quando a igreja reforça isso sem querer, com “testemunhos de emagrecimento” no púlpito e “desafios de saúde” que mais parecem competição, a ferida só cresce.

Você não precisa de uma caneta pra ser completa. Você talvez precise de um espaço onde possa dizer em voz alta: “eu tenho medo de não ser suficiente”. E ouvir de volta que esse medo não define quem você é.

Se você se reconheceu nesse texto

Eu trabalho com mulheres que carregam essas dores há anos. Algumas chegam falando do casamento. Outras, da ansiedade. Mas em algum momento, a conversa chega no corpo. No espelho. Na sensação de que falta alguma coisa.

Se você quer um espaço seguro pra explorar isso, sem julgamento e com fé, a minha agenda tem horários abertos para uma primeira conversa gratuita. Não é compromisso. É só o começo de olhar pra dentro com mais gentileza.

Leia também

Canetas emagrecedoras resolvem problemas emocionais com o corpo?

Não. Medicamentos para emagrecimento atuam no metabolismo, mas a relação emocional com o corpo envolve feridas de autoestima, rejeição e padrões aprendidos na infância. A terapia ajuda a identificar e tratar essas raízes emocionais que nenhum medicamento alcança.

Como saber se minha insatisfação com o corpo é emocional?

Quando emagrecer não traz a satisfação esperada, quando a dieta vem acompanhada de culpa e ansiedade, ou quando você condiciona sua felicidade a um número na balança, é provável que existam questões emocionais por trás. Um psicanalista pode ajudar a diferenciar o cuidado saudável da autopunição.

A fé cristã pode ajudar na relação com o corpo?

Sim, quando vivida de forma saudável. A Bíblia fala sobre cuidar do corpo como templo, mas isso é um convite ao amor próprio, não uma cobrança de perfeição. A psicanálise cristã integra fé e autoconhecimento para uma relação mais gentil consigo mesma.

Veja Mais

Post semelhantes