A Milena saiu do BBB 26 com um diagnóstico na mão e uma enxurrada de opiniões na outra. Ela buscou ajuda profissional, recebeu um laudo, e mesmo assim teve que ouvir de meio mundo que estava “inventando”. Que era frescura. Que era estratégia de jogo.
Eu assisti àquilo e pensei: quantas mulheres vivem isso todo dia, longe das câmeras?
Não precisou nem uma semana para os comentários explodirem nas redes. Gente que nunca abriu um livro de psicologia dando parecer sobre transtornos mentais. E a Milena, ali, tendo que se defender por algo que deveria ser tratado com respeito, não com deboche.
Isso me incomoda profundamente. Porque eu atendo mulheres que passam por isso. Mulheres que demoram anos para finalmente buscar ajuda e, quando conseguem, encontram julgamento em casa, no trabalho, na igreja.
Por que a sociedade ainda desconfia de quem busca ajuda
Existe um roteiro que se repete. A pessoa sente que algo não está bem. Procura um profissional. Recebe um diagnóstico. E aí vem a parte mais difícil: contar para alguém.
“Mas você não parece ter isso.” Essa frase já fez mais estrago do que qualquer transtorno. Segundo a OMS, o Brasil é o país mais ansioso do mundo, com quase 19 milhões de pessoas convivendo com algum transtorno de ansiedade. Mesmo assim, a gente trata saúde mental como se fosse opinião, não ciência.
Parte disso vem de uma cultura que valoriza a resistência. “Ser forte” significa aguentar calado. Chorar é fraqueza. Terapia é “coisa de louco”. Esse discurso está tão enraizado que muita gente repete sem perceber o quanto machuca.
Uma pesquisa da Ipsos de 2023 mostrou que 45% dos brasileiros ainda sentem vergonha de falar sobre seus problemas de saúde mental. Quase metade. E entre os que sentem vergonha, a maioria são mulheres que já tinham um diagnóstico, mas escondiam por medo de serem diminuídas.
A gente precisa parar de tratar diagnóstico como defeito. Um diagnóstico é um mapa, não uma sentença. Ele mostra onde você está para que você possa decidir para onde quer ir.
O preconceito dentro da igreja: cristã pode fazer terapia?
Sim. Ponto final.
Mas eu sei que não é tão simples assim na prática. Já ouvi de pacientes coisas como “meu pastor disse que eu só preciso de mais fé” ou “minha líder falou que terapia é coisa do mundo”. Essas falas vêm de um lugar de cuidado genuíno, eu acredito nisso. Mas causam um dano enorme.
Quando uma mulher cristã ouve que fazer terapia significa falta de fé, ela entra num ciclo de culpa. Ela já está sofrendo com ansiedade, depressão ou esgotamento, e agora carrega mais uma camada: a sensação de que está falhando espiritualmente. Isso não é cuidado. Isso é peso.
Eu sou cristã. Realmente cristã, não da boca para fora. E justamente por isso defendo a terapia com tanta convicção. Fé e ciência não são inimigas. Nunca foram. Deus nos deu inteligência para estudar o corpo e a mente. Ele nos deu profissionais capacitados para ajudar quando a dor é grande demais para carregar sozinha.
Se você quer entender melhor como essas duas coisas se conectam, escrevi sobre isso com mais profundidade em Cristã pode fazer terapia? Sim, e a Bíblia concorda. Vale a leitura.
O livro “A Síndrome da Boazinha”, que está na minha biblioteca de recomendações, toca exatamente nesse ponto. Muitas mulheres cristãs foram ensinadas a serem agradáveis o tempo todo, a não causar incômodo, a engolir a dor com um sorriso. A Bíblia não ensina isso. A Bíblia mostra Davi chorando nos Salmos, Elias querendo desistir, Ana orando com amargura na alma. Gente real, sentindo coisas reais.
O que a Bíblia realmente diz sobre cuidar da mente
Filipenses 4:7 diz que “a paz de Deus, que excede todo entendimento, guardará o vosso coração e a vossa mente em Cristo Jesus”. Percebe o que o texto diz? Guarda o coração E a mente. Deus se preocupa com a sua saúde mental. Sempre se preocupou.
Em 1 Reis 19, Elias acabou de ter uma das maiores vitórias espirituais da sua vida no Monte Carmelo. Logo depois, ele fugiu, se escondeu debaixo de uma árvore e pediu para morrer. E sabe o que Deus fez? Não deu sermão. Não chamou de fraco. Mandou um anjo trazer comida e deixou ele dormir. Deus cuidou do corpo e da mente de Elias antes de qualquer conversa espiritual.
Isso me emociona toda vez que leio. Porque mostra que Deus entende o esgotamento. Ele não espera que a gente funcione no automático. Ele sabe que a gente quebra, e Ele não nos condena por isso.
Se você quer se aprofundar nesse tema, recomendo a leitura do artigo Terapia na Bíblia: 7 Passos para a Cura Espiritual e Paz. Ele traz um olhar completo sobre como as Escrituras apoiam o cuidado emocional.
Quando buscar ajuda não é fraqueza, é coragem
Eu preciso falar uma coisa que talvez ninguém tenha te dito: você não é fraca por precisar de ajuda. Você é corajosa por admitir que precisa.
Sabe o que é fraqueza de verdade? Fingir que está tudo bem quando não está. Sorrir por obrigação. Dizer “estou ótima” enquanto por dentro está desmoronando. Isso não é força. Isso é sobrevivência no modo automático.
A coragem está em olhar para dentro e dizer “eu não estou bem, e tudo bem não estar bem”. Está em pegar o telefone e marcar uma consulta. Está em aceitar que você merece cuidado, não apenas como mãe, esposa ou profissional, mas como pessoa.
O caso da Milena no BBB 26 trouxe esse assunto para a mesa de milhões de brasileiros. E por mais doloroso que tenha sido para ela, talvez seja a chance de a gente mudar a conversa. De parar de perguntar “mas será que é verdade?” e começar a perguntar “como posso ajudar?”.
Se você está lendo isso e se identificou, quero que saiba: seu diagnóstico não te define, mas a coragem de buscar ajuda diz muito sobre quem você é.
Eu ofereço uma primeira sessão gratuita para quem quer dar esse primeiro passo. Sem compromisso, sem julgamento, sem pressa. Só um espaço seguro para você ser ouvida. Se sentir que é a hora, me chama.
Sobre a autora
Raquel Santos é psicanalista clínica cristã, registrada no CBPC sob o número 2022-757. Atende online mulheres que buscam se reconectar consigo mesmas, com sua fé e com sua saúde emocional. Seu trabalho une escuta profissional, acolhimento genuíno e uma base bíblica sólida.